Construído através da internet, um satélite de estudantes está a nascer na ESA-ESTEC

SSETI satellite
SSETI Express
19 Outubro 2004

Dispersos por várias universidades europeias, uma sólida equipa de 250 estudantes que nunca se conheceram pessoalmente, construiram entre si um satélite espacial. O SSETI Express está actualmente a ser integrado numa sala limpa da ESA para um lançamento programado para Maio do próximo ano.

A colaboração entre a rede pan-europeia de estudantes, universidades e peritos envolvidos no projecto SSETI (Student Space Education and Technology Initiative) foi levada a cabo através da internet.

Agora que os subsistemas completos estão a ser entregues ao Centro Europeu de Investigação e Tecnologia Espaciais da ESA (ESTEC) na Holanda, participantes remotos da Itália à Dinamarca estão a seguir avidamente o processo de integração, através de fotografias actualizadas diariamente e do registo da integração e, para além disto, também através de uma webcam.

Jörg Schaefer da Universidade de Stuttgart, na Alemanha, pôs temporariamente de parte os seus estudos para o doutoramento em Design de Sistemas de Satélite para participar no trabalho de integração no ESTEC: "O que estamos a fazer aqui na sala limpa é montar o modelo de voo do satélite final. Após toda a programação e preparação para a missão, é entusiasmante vê-lo finalmente tomar forma, com novas peças a serem entregues quase todos os dias."

À semelhança de uma boneca russa, o SSETI Express transportará dentro de si três 'cubesats' mais pequenos – analisadores tecnológicos de 10 centímetros cúbicos, construídos, respectivamente, por universidades na Alemanha, Japão e Noruega – que serão “libertados” quando o satélite se encontrar em órbita. O próprio SSETI Express principal irá testar e caracterizar um sistema de propulsão, enviar imagens da Terra e servir de transmissor-respondedor para utilizadores rádio-amadores.

O SSETI Express mede apenas 60 por 60 por 70 cm, sendo suficientemente pequeno para poder ser lançado em órbita no lançamento comercial do próximo ano de um Cosmos DMC-3, a partir de Plesetsk na Rússia.

"Com o SSETI Express passámos da concepção à integração num ano, o que é um prazo muito curto para um satélite," explicou Neil Melville, inicialmente um jovem estagiário recém-licenciadona ESA e agora director do projecto SSETI Express e também engenheiro de sistemas de satélite. "Os estudantes estão a trabalhar com a ajuda dos engenheiros do ESTEC, que nos fornecem toda a espécie de sugestões que, de outra forma, não conheceríamos, como, por exemplo, a melhor forma de efectuar a soldadura de um satélite – alguns engenheiros foram convidados a visitar as universidades dos estudantes nos diferentes países para proferir palestras sobre os seus conhecimentos!

"Esperamos ter o modelo de voo concluído no final do mês de Novembro, a tempo de o submeter a verificações das suas capacidades espaciais, incluindo testes de vácuo e de vibrações e garantindo a compatibilidade electromagnética. O ponto crítico que enfrentamos neste momento é transportar o satélite para a Rússia nos finais de Fevereiro do próximo ano, para o lançamento programado para meados de Maio. Depois, apenas quatro ou cinco pessoas da nossa equipa irão assistir ao lançamento, sendo escolhidas entre as mais adequadas para efectuar as preparações e testes pré-voo que estamos actualmente a definir."

ESEO

Colocar em órbita umsatélite operacional representaria um acontecimento formidável, mas para o SSETI será apenas o início. O SSETI Express é um banco de ensaio e um demonstrador tecnológico para outra missão de maior escala, o European Student Earth Orbiter (ESEO), que deverá viajar a bordo de um Ariane 5.

"O ESEO é um complexo microsatélite de 100 kg com múltiplos instrumentos, que será lançado numa órbita de transferência geoestacionária em 2007, transportado como carga útil num Ariane 5," explicou Philippe Willekens do Departamento de Educação da ESA.

"O projecto está a avançar de forma regular mas lentamente, e dava a entender que muitos dos estudantes se formariam antes de ver o seu equipamento a voar. Desta forma, desenvolvemos o Express como uma missão precursora, utilizando vários subsistemas do ESEO que estavam prontos a ser montados e que os responsáveis dos departamentos universitários anseavam pôr em órbita.

"O Express serve de motivação adicional, um banco de ensaio tecnológico, um percursor logístico e, mais importante, uma demonstração de capacidades ao SSETI e às comunidades educacionais, à nossa rede de apoio na ESA e à comunidade espacial em geral. Os participantes estão a receber formação acerca da preparação da missão a todos os níveis, da concepção ao lançamento e funcionamento, passando por aspectos de gestão legal e de risco."

O Express, à semelhança da missão ESEO que se seguirá, é verdadeiramente um projecto à escala europeia. Por exemplo, os painéis solares vieram do carro solar holandês Nuna II patrocinado pela ESA, enquanto que o sistema eléctrico foi construído por uma equipa italiana de Nápoles, e o seu computador de bordo e a câmara vieram de Aalborg na Dinamarca.

O subsistema de propulsão de gás frio do satélite é uma criação alemã, da Universidade de Stuttgart, enquanto que os sistemas de comunicação dupla – banda S e UHF - são da responsabilidade de rádio-amadores ingleses e alemães. Um estudante dinamarquês concebeu o sistema magnético de controlo e determinação de atitude do satélite.

O Departamento de Educação da ESA fundou o SSETI em 2000. O seu objectivo é encorajar os estudantes a aprender sobre o espaço através da concepção, construção e lançamento de pequenos satélites. O seu slogan: 'Vamos lançar o sonho!'

Sabendo que não existem departamentos universitários capazes de levar avante esta tarefa na sua totalidade, o SSETI estabeleceu uma rede de indivíduos e instituições académicas para distribuir as diversas actividades necessárias para executar uma verdadeira missão espacial.

A coordenação entre os grupos é feita utilizando um servidor de notícias especializadas e IRCs (Internet Relay Chats) semanais, bem como o website do SSETI. Os encontros cara-a-cara são mais a excepção do que a regra, com encontros de representantes dos grupos de seis em seis meses num workshop no ESTEC.

Para além do Express e do ESEO, o SSETI espera tornar-se numa rede de facilitação de pleno direito para todas as actividades espaciais dos estudantes, com membros que se dedicam a estudos de exequibilidade pormenorizados para um Veículo Orbital Lunar de Estudantes Europeus (ESMO), um Jeep Lunar de Estudantes Europeus (ESMR) e mesmo um veículo orbital para Marte.

"O SSETI é um programa estrutural que está agora a ser concretamente organizado por diversos grupos de estudantes de várias universidades europeias," concluiu Willekens. "A comunidade está também aberta a outros grupos de estudantes.

"Esta oportunidade única para os estudantes é também uma oportunidade única para a ESA para observar a forma como a nova geração trabalha num vasto sistema distribuído pela internet, com poucos recursos, mas com grande entusiasmo e energia."

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