"Olho" espacial para os têxteis

A tecnologia espacial melhora a qualidade dos tecidos
18 Fevereiro 2005

Um olho artificial desenvolvido para Observação da Terra está agora a ser utilizado para reconhecer variações de cor em tecidos tingidos: um elemento crítico na produção têxtil. Isto poderá reduzir significativamente os 160 milhões de metros de tecido tingido anualmente desperdiçados na Europa que comportam elevados custos ambientais.

"Hoje a maior parte das mais de 40 000 empresas têxteis europeias dependem do controlo de qualidade feito manualmente. Pessoal especializado controla os tecidos à medida que eles vão sendo produzidos, mas este é um método caro e tecnicamente não muito fiável", disse Stefano Carosio, um Project Manager da empresa italiana D'Appolonia, parte da rede de empresas do Programa de Transferência de Tecnologia da ESA.

Até agora o controlo da cor nos têxteis foi feito manualmente

Idealmente os fabricantes de têxteis teriam preferência por sistemas automáticos de controlo de cores durante a produção, mas até agora foi impossível fabricar uma máquina capaz de reproduzir as capacidades do olho humano, que é capaz de diferenciar mais de 30 000 cores diferentes.

As tecnologias espaciais desenvolvidas no âmbito da Observação da Terra chegaram agora para solucionar este problema sob a forma de um sistema espectrográfico desenvolvido pela empresa fancesa SPECIM. Originalmente este sistema foi utilizado na detecção remota para controlar os efeitos dos agro-químicos usados pelos agricultores, para aumentar a eficiência e reduzir os prejuízos ecológicos. Este sistema também provou ser capaz de identificar as variações de cor em têxteis.

Do espaço aos têxteis

Produção têxtil monitorada por um "olho" espacial

Em colaboração com a D’Appolonia e com um grupo de empresas de tingimento de tecidos do Norte da Itália, a universidade italiana de Como construiu um prótotipo de um sistema óptico capaz de comparar com precisão as cores nos têxteis. Funciona através da análise minunciosa, através de um processo de digitalização, de uma linha ao longo do tecido e da medição do espectro de várias áreas ao longo desta linha. O sistema digitaliza o tecido à medida que este percorre a linha de produção, mesmo a altas velocidades.

Para reduzir a necessidade de manutenções complexas, o sistema é desenhado para ser mecanicamente simples sem mecanismos de digitalização complicados: é o tecido que move por baixo do olho fixo do scanner.

“O sistema gerou muito interesse na indústria têxtil italiana numa demonstração em Como organisada pela Associação Italiana do Têxtil e da Seda em Dezembro de 2000”, afirmou Stefano Carosio. “Foi claro que um sistema como este poderia reduzir custos e aumentar a competitividade da indústria têxtil europeia.” Apoiado pelo Programa de Transferência de Tecnologia da ESA, o projecto recebe agora suporte financeiro da Comissão Europeia estando integrado na iniciativa CRAFT.

O Coltex na Feira da Tecnologia Têxtil 2003 em Frankfurt

“Uma coisa é demostrar o conceito e outra é ser capaz de adaptar a tecnologia para produção industrial,” explica Stefano Carosio. “Nós precisávamos de um sistema automático que pudesse realizar durante a produção a inspecção têxtil online, sem interromper o trabalho. Para o tornar interessante para a indústria, tinha de operar a velocidades de produção até 1000 metros de tecido por minuto – o que está longe de ser um requisito fácil.”

Como prime contractor a empresa italiana IRIS DP liderou um consórcio de cinco empresas europeias para desenvolver o primeiro sistema, Coltex, que foi apresentado pela primeira vez na Feira da Tecnologia Têxtil 2003 em Frankfurt.

“Recebemos tantos pedidos de encomenda por parte das empresas, que tinhamos a certeza que produzir um sistema assim seria bom negócio e resolveria o maior problema da indústria têxtil europeia,” afirmou Stefano Carosio.

A primeira máquina industrial estava disponível no final de 2003. Em 2004 cinco máquinas foram vendidas a empresas de têxteis em Itália. Cinco outras máquinas adicionais deverão ser produzidas em 2005, três para empresas italianas e duas para outras empresas de têxteis não italianas.

Uma máquina Coltex foi instalada no centro expositivo do CITEVE, o Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário de Portugal, em Vila Nova de Famalicão.

O CITEVE desenvolve a sua actividade de apoio técnico e tecnológico à indústria em seis grandes áreas de intervenção:
- Actividade Laboratorial
- Consultoria e Assistência Técnica
- Vigilância e Desenvolvimento Tecnológico
- Valorização de Recursos Humanos
- Cooperação com a Administração Pública na definição e implementação de políticas para o sector e para as regiões de forte implantação do sector
- Consultoria Internacional

Os resultados

O Coltex pode analisar as cores nos tecidos

O uso do “olho” espacial na indústria têxtil melhorou a qualidade da produção têxtil e diminuiu os custos, visto a quantidade de tecido desperdiçado ser significativamente menor. Os 160 milhões de metros de tecido tingido desperdiçado anualmente na Europa corresponde a um prejuízo de 800 milhões de euros e 8000 toneladas de agentes de tingimento e solventes que têm de ser “limpos”, através de procedimentos dispendiosos, para evitar poluição ambiental.

“Este novo sistema permite aos fabricantes de têxteis controlar muito melhor a produção. Através dele é possível detectar irregularidades de cor imediatamente, durante o processo de produção, e fazer as correcções necessárias para evitar defeitos nos tecidos,” afirma Denis Cardella, o Project Manager da IRIS DP para o sistema Coltex.

O controlo é feito através de um sistema computorizado automático

“Os têxteis são produzidos em grandes rolos, tipicamente 35 metros no caso da seda e até 2000 metros no caso do algodão. Através dos processos existentes até agora só os defeitos de cor maiores podiam ser identificados durante a produção, a maioria dos defeitos só era detectada quando o tecido já ia ser utilizado. Isto significava custos extra muito elevados, trabalho desnecessário e mais material a ser desperdiçado,” explica Denis Cardella.

“A nossa máquina Coltex aumenta a garantia de qualidade do produto e especifica com maior precisão as diferenças de cor num rolo. Sabendo isto, os fabricantes de tecidos podem mais facilmente optimizar o uso do material e desperdiçar menos.”

Sistema espectrográfico para detectar defeitos de cor

“É impressionante como a máquina fotográfica, o “olho” artificial desenvolvido para observação espacial, pode distinguir cores, pequenos defeitos depois do tingimento e até mesmo identificar diferenças em tons de cor. Estamos agora a investigar novas áreas em que novas tecnologias, tais como as que são desenvolvidas para o espaço, possam melhorar a produção têxtil europeia,” acrescentou.

Pierre Brisson, responsável pelo gabinete de Transferência e Promoção de Tecnologia da ESA, afirmou: “nós estamos muito satisfeitos que a tecnologia desenvolvida para o espaço esteja a ser usada para reduzir a quantidade de desperdícios e aumentar a qualidade na indústria têxtil. Com isto, a indústria têxtil europeia será mais competitiva: uma necessidade, se queremos manter os empregos no sector industrial que está a ser ameaçado na Europa”.

Copyright 2000 - 2014 © European Space Agency. All rights reserved.