Rasto de tartarugas em perigo ao longo das correntes oceânicas revelado por satélite

Uma tartaruga gigante ameaçada
3 Agosto 2004

O local onde as naves espaciais europeias são lançadas em órbita, a costa atlântica da Guiana Francesa, é também o ponto de partida para outra viagem não menos notável: a épica migração das tartarugas gigantes, que se encontram perigosamente ameaçadas.

Os cientistas têm vindo a utilizar sensores de detecção para seguir os longos rastos individuais de tartarugas gigantes, comparando depois as suas rotas com dados do estado do mar, incluindo mapas em tempo quase real das correntes do oceano obtidos através de satélites da ESA como o ERS-2, e agora também através do Envisat.

Estes cientistas estão a trabalhar no sentido de descobrir as ligações entre as rotas aparentemente sinuosas seguidas pelas tartarugas e as condições locais do oceano. Deste modo, será possível desenvolver estratégias para minimizar as ameaças resultantes da pesca em alto mar que, apesar de não intencionais, são mortais para as tartarugas gigantes.

Estes répteis gigantes - que se sabe poderem atingir os 2.1 metros de comprimentos e os 365 kg de peso - fazem uma curta viagem até terra firme para porem os ovos nas praias da Guiana Francesa e do vizinho Suriname, os últimos locais de maior nidificação ainda existentes no Oceano Atlântico. Passadas cerca de nove semanas, as tartarugas bebés surgem em massa e dirigem-se para o mar. Regressarão um dia, quando atingirem a maturidade para elas próprias porem os seus ovos.

Infelizmente, o regresso de cada uma das tartarugas não está de forma alguma garantido. Enquanto que no mar alto as tartarugas são conhecidas por mergulhar até uma profundidade de 1.230 metros à procura de alimentos, a maior parte das vezes não se aventuram a mais de 250 metros de profundidade, tornando-se vulneráveis aos anzóis dos pescadores de longo curso – centenas de milhares destes anzóis são utilizados diariamente ao longo do Atlântico.

As 'capturas' continuadas de tartarugas gigantes por parte dos pescadores deixou esta espécie com 100 milhões de anos à beira da extinção nos oceanos Pacífico e Índico. No Atlântico, encontram-se em maior número – em parte devido à interdição de utilização de aparelhos de anzol aos pescadores dos EUA a operar na secção norte do oceano - mas as tartarugas continuam a desaparecer a um ritmo insustentável.

A revista Nature publicou recentemente um artigo que resumia o trabalho desenvolvido até agora na localização das tartarugas gigantes ao longo do Atlântico. Este trabalho foi apresentado por uma equipa de investigadores do Centro Nacional para a Investigação Científica em Estrasburgo, França, em colaboração com a Universidade Louis Pasteur, o Departamento Regional para o Meio Ambiente da Guiana Francesa e a empresa Collecte Localisation Satellites (CLS) em Ramonville, especializada em sistemas de localização e detecção via satélite, recolha de dados e Observação da Terra.

Turtles migration
Cruzamento da trajectória de uma tartaruga com os dados do altímetro

As tartarugas gigantes do Pacífico seguem corredores de migração estreitos. Os investigadores esperavam que se as suas congéneres do Atlântico actuassem da mesma forma se poderia restringir a pesca nessas zonas.

A partir de 1999, seguiu-se individualmente o rasto das tartarugas utilizando o sistema Argos da CLS, baseado em anilhas rádio-emissoras cuja posição pode ser localizada em qualquer parte do mundo com uma precisão máxima de 150 metros. Actualmente, seis satélites americanos NOAA transportam receptores Argos, estando previsto que a série de satélites MetOp da ESA se junte ao sistema após o lançamento do seu satélite inicial no próximo ano.

Os rastos das tartarugas foram então comparados com mapas das anomalias do nível do mar obtidos através do cruzamento de dados do altímetro de radar a bordo do ERS-2 da ESA com um outro a bordo do satélite TOPEX-Poseidon da NASA-CNES.

O ERS-2, à semelhança do seu sucessor Envisat, faz parte de grupo restrito de satélites equipados com Altímetro de Radar (RA). A transmissão de milhares de impulsos de radar por segundo a partir da superfície do mar torna possível uma medição extremamente precisa da altura do oceano. As anomalias de altura detectadas por este tipo de sensor são muitas vezes indicadores da presença de correntes oceânicas e redemoinhos: as correntes quentes podem elevar-se um metro acima das águas mais frias. +

O cruzamento dos vários resultados dos altímetros de radar permitiu obter medições com maior resolução e maior frequência das anomalias do nível do mar do que um únicosatélite poderia conseguir. Por exemplo, agora que a missão global do ERS-2 terminou, os resultados do instrumento RA-2 do Envisat estão a ser cruzados com dados semelhantes da nave espacial conjunta Jason da França e dos EUA e o GFO da Marinha dos EUA.

"Os dados do altímetro têm sido muito úteis para o nosso trabalho porque nos permitiram verificar a trajectória das tartarugas contra as correntes dos oceanos", comentou Philippe Gaspar, co-autor do artigo da Nature e Director da Divisão de Oceanografia por Satélite da CLS. "Aquilo que verificamos foi que a sua relação com as correntes se altera consideravelmente no decorrer das suas viagens.

Satélite Envisat da ESA

"Ao contrário das suas congéneres do Pacífico, as tartarugas gigantes do Atlântico não seguem corredores de migração estreitos mas dispersam-se muito - para começar, as tartarugas gigantes iniciam as suas migrações em linha quase recta em direcção ao Norte ou ao Equador, nadando através das correntes à medida que as enfrentam. Uma delas chegou a percorrer 500 km da África Ocidental antes de voltar para trás, outra chegou perto da Nova Escócia.

"Depois, ao alcançarem a área da Corrente do Golfo ou a faixa equatorial, as tartarugas têm tendência a prosseguir mais devagar e seguir as áreas frontais associadas aos sistemas de correntes oceânicas locais, que são geralmente ricas em vida marinha."

Infelizmente, e exactamente pelas mesmas razões, as frotas de pesca dirigem-se também para estes sistemas frontais e, assim, estas tartarugas encontram-se em perigo. Esta descoberta significa que os encerramentos das áreas de pesca do Atlântico não terão grande impacto na redução da captura das tartarugas e terão de ser ponderadas outras soluções, tais como os aparelhos de pesca e anzóis 'amigos das tartarugas' recentemente desenvolvidos pela NOAA e aprovados pelo World Wildlife Fund (Fundo Mundial da Vida Selvagem).

Entretanto, a localização das tartarugas gigantes prossegue de forma contínua, acrescentou Gaspar: "Procuramos agora calcular a velocidade de deslocação das tartarugas durante as suas viagens, analisando a sua velocidade total a partir dos receptores Argos e subtraindo a velocidade das correntes que nos é fornecida pelos altímetros. Este trabalho é pioneiro e deverá dar-nos informações úteis acerca da energia que despendem nas suas migrações".

As escolas francesas tiveram a oportunidade de participar num programa educacional oceanográfico chamado Argonautica, com turmas a colaborar no projecto Argo-luth, analisando os dados dos movimentos das tartarugas fornecidos pelo MERCATOR, um modelo que cobre actualmente o Oceano Atlântico Norte e Equatorial e “assimila” os dados do altímetro de radar numa base operacional.

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