Satélites mapeiam habitat vulcânico de gorilas africanos em vias de extinção

Gorilla territory
Voo virtual sobre o Parque Nacional de Vulcões utilizando os dados do BEGo
8 Julho 2004

Os colaboradores de conservação poderam , pela primeira vez, ter acesso aos primeiros produtos cartográficos obtidos por satélite que mostram, com um nível de detalhe sem precedentes, um habitat remoto de gorilas de montanha africanos em vias de extinção. As versões operacionais destes protótipos ajudarão a proteger os menos de 700 exemplares vivos desta espécie.

"É emocionante ver alguns dos produtos que poderemos levar para o terreno futuramente", observa Maryke Gray, responsável pela monitorização regional do Programa Internacional de Conservação de Gorilas (IGCP). “A área abrangida é um maciço vulcânico de difícil acesso; os poucos mapas disponíveis têm mais de três décadas e são, frequentemente, imprecisos; para algumas zonas do território nem sequer possuímos nenhum mapa."

Dennis Babasa, coordenador da monitorização ecológica do Instituto de Conservação da Floresta Tropical do Uganda, acrescenta: "Há muito que queríamos criar estes mapas, mas não tínhamos, pura e simplesmente, as ferramentas para o fazer. A detecção remota está a fornecer instrumentos úteis para o nosso trabalho."

Dian Fossey Gorilla Fund
Um gorila bebé

Os gorilas de montanha habitam nas altas florestas situadas nas fronteiras entre o Ruanda, o Uganda e a República Democrática do Congo. Estas regiões constituem um conjunto de cinco parques nacionais. Três destes parques foram reconhecidos como Património Mundial pela Organização Educacional, Científica e Cultural das Nações Unidas (UNESCO), tendo os outros dois sido nomeados para a mesma categoria.

No entanto, conflitos políticos regionais originaram um fluxo de refugiados para as áreas limítrofes dos parques. O desbravamento da floresta tendo em vista a agricultura ou o combustível, bem como a caça ilegal em busca de alimento, teve um impacto nos parques, reduzindo o habitat dos gorilas.

É difícil proteger os parques, pois eles possuem longas fronteiras que percorrem um território praticamente inacessível, que quase não está cartografado. Um projecto conduzido pela ESA designado por 'Build Environment for Gorilla' (BEGo) - Construir um Ambiente para o Gorila - tem utilizado dados de observação da Terra para cartografar a região, a fim de auxiliar o trabalho das entidades de conservação no interior dos parques e na sua área envolvente.

A 10 e 11 de Junho, representantes dos parceiros do BEGo, incluindo a UNESCO, o IGCP, o Gabinete do Programa para a África Oriental do Fundo Mundial para a Vida Selvagem (WWF-EAPO), Institute Congolese of Nature Conservation (ICCN) e o Instituto de Conservação da Floresta Tropical do Uganda (ITFC), reuniram-se no Instituto Europeu de Investigação Espacial (ESRIN) da ESA em Frascati, perto de Roma, para rever os primeiros produtos de mapeamento.

A área de interesse do BEGo

Estes incluem um mapa de base numa escala de 1:50000, um mapa de vegetação e um modelo digital de elevação (DEM) da área que circunda o Parque Nacional de Vulcões do Ruanda.

O mapa de base foi apresentado numa versão em papel durante o processo de revisão que durou dois dias. Os mapas de base e de vegetação foram ainda sobrepostos ao DEM para criar uma representação tridimensional da paisagem. Para se familiarizarem com os produtos, os parceiros do BEGo experimentaram uma simulação de voo sobre a área utilizando o ‘Teatro de Realidade Virtual’ do ESRIN.

A sessão marcou o fim da primeira fase do BEGo, explica Mario Hernandez da UNESCO: "O projecto produziu, até agora, 'protótipos'. Esta reunião serviu, assim, para analisar estes protótipos e decidir se valia a pena continuar ou não.”

"É emocionante constatar que agora estamos a ir mais longe. Estamos, basicamente, a entrar num modo de produção que nos permitirá elaborar todos os mapas de todas as regiões que foram seleccionadas no âmbito do projecto BEGo. O teste dos 'protótipos' foi, por isso, positivo!"

Virunga volcanoes
Vulcões de Virunga

Gray acrescenta: "O que estamos a fazer é recorrer à experiência adquirida para detectar pequenos erros de classificação e outros problemas. 95% do trabalho está feito; restam 5%. Os novos produtos serão, obviamente, úteis para a coordenação de patrulhas e para todas as actividades associadas. Dantes tínhamos de utilizar mapas nacionais distintos com escalas diferentes, mas agora dispomos de um mapa que abrange os três países."

Marc Languy da WWF-EAPO salientou a extensão do território abrangido: “O mapa vai muito para além das fronteiras do parque, o que reflecte a noção de que os parques não podem ser encarados como ilhas isoladas, mas sim como zonas incluídas numa paisagem mais vasta. Colmata, assim, as necessidades de desenvolvimento das comunidades locais, fornecendo alternativas à redução a curto prazo do território dos parques. O mapa pode constituir uma grande ajuda permitindo, por exemplo, o planeamento do eco-turismo, o qual pode beneficiar a população local.”

A fase seguinte prevê o alargamento da cobertura ao restante habitat dos gorilas de montanha: o Parque Nacional de Kahuzi-Biega (Património Mundial) e o Parque Nacional de Virunga (Património Mundial) na República Democrática do Congo, e o Parque Nacional de Bwindi (Património Mundial) e o Parque Nacional de Mgahinga no Uganda, bem como o fornecimento de mapas associados com a descrição da mudança da vegetação desde 1990.

“A pressão da população continua a ser elevada nas zonas limítrofes dos parques: os produtos relativos à mudança de vegetação ajudar-nos-ão a identificar as áreas ameaçadas”, acrescenta Hernandez. “Além disso, existe, obviamente, a possibilidade de alargar as técnicas do BEGo a outros Locais de Património Mundial em perigo – só na República Democrática do Congo existem outros três, os quais serão cartografados de forma semelhante.”

No ano passado, a ESA e a UNESCO formalizaram uma iniciativa para a utilização das tecnologias espaciais, com vista a auxiliar a Convenção do Património Mundial. Outras agências espaciais aderiram a esta iniciativa: por exemplo, o "Belgian Federal Science Policy Office" (Gabinete Federal Belga de Assuntos Científicos) tenciona utilizar as tecnologias espaciais para mapear todos os locais classificados como Património Mundial na República Democrática do Congo. Os dados e a experiência adquridos serão totalmente partilhados por este projecto e pelo BeGO.

O BEGo é um projecto de demonstração de serviços que faz parte do "Data User Element" da ESA e cujo prime contractor é a Synoptics, sediada na Holanda.

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